Relacionar-se significa envolver-se com alguém ou algo. Esse envolvimento pode ser completo ou parcial, o que depende muito da pré-disposição de quem pretende entregar-se a uma relação. As pessoas entre si, geralmente, procuram se relacionar por afinidades, o que denota uma busca, quase que angustiada, por atenção e compreensão. E pretendem preencher um vazio, que completo deve estar, para que a vida flua com um maior nível de normalidade.
As chamadas afinidades nascem de uma escolha, que precede várias. Muitos caprichos, características, atitudes e estilos compõem um padrão pessoal para se definir com quem se conversa, em quem se confia, e outras formas de relação.
Muitas pessoas refletem sobre a possibilidade de seus amigos se tornarem seus parentes, e a respeito de escolherem quem pode ou não fazer parte da família. Dois acontecimentos que a princípio não são possíveis de se consolidar, a não ser por “brincadeirinha”. Seria muito interessante se cada pessoa pudesse escolher os seus parentes; o critério, de imediato, seria por afinidades, posteriormente outros surgiriam, interesses, pessoais, dentre outros. Mas será que se assim fosse não seria fácil demais criar vínculos? Será que todos esses seriam, de fato, pessoas verdadeiras, confiáveis? Será que a impossibilidade de escolher quem entra para a família não é, no fundo, benéfica?
É difícil encontrar relacionamentos, que duraram muitos anos, nos quais nunca houveram brigas ou quaisquer outros desentendimentos. É difícil, por que é normal acontecer. As pessoas mudam cotidianamente, devido a problemas, emoções, desencontros, etc. O dever é: aprender a conviver com os defeitos do outro, e o direito é: aceitar ou não tais defeitos.
Apesar de entrar em atritos rotineiramente com quem se ama, já dizia Tom Jobim “é impossível ser feliz sozinho”. A solidão é um sentimento ruim, inseguro, vazio que causa depressão e angustia, então é mais saudável procurar por aqueles a quem de fato se ama, para desfrutar de uma infinidade de sentimentos que podem ser compartilhados.
Para viver um bom relacionamento, que tal começar a ter, frequentemente, uma boa comunicação? Muitas relações tendem a falhar, por falha no diálogo, ou como os comunicólogos diriam por um “ruído” na comunicação. São absolutamente pré-disposições que a pessoa deve ter para viver satisfatoriamente com o outro. Além de tantos sentimentos, aquele que se destaca é amor, sem o qual relação nenhuma se sustenta.
Bauman, em seu livro Amor Líquido enfatiza que “sem humildade e coragem não há amor, essas duas qualidades são exigidas, em escalas enormes e contínuas” (p. 22). Seja qual for a ordem da relação amorosa: fraterna, afetiva, familiar, entre apaixonados, deve ser precedida também de humildade e coragem, ou então não tem como durar e prosperar. É fato!
No amor, que se caracteriza como um sentimento, único, sincero, diferenciado, que dispensa quaisquer provações, tudo é respeitado, desde que seja dialogado e compreendido. Bauman enfatiza que:
“Em todo amor há pelo menos dois seres, cada qual a grande incógnita na equação do outro. É isso que faz o amor parecer um capricho do destino – aquele futuro estranho e misterioso, impossível de ser descrito antecipadamente, que deve ser realizado ou protelado, acelerado ou interrompido. Amar significa abrir-se ao destino, a mais sublime de todas as condições humanas, em que o medo se funde ao regozijo num amálgama irreversível. Abrir-se ao destino significado, em última instância, admitir a liberdade no ser: aquela liberdade que se incorpora no Outro, o companheiro no amor (p.21)”
A saga do amor é uma guerra constante, repleta de batalhas, nas quais a vitória e a derrota aparecem frequentemente. Além de rir e chorar, o amor aguarda a surpresa, o inesperado, o incrível. Do futuro, o amor só quer saciedade e tranquilidade. Bauman sintetiza bem “não importa o que você aprendeu sobre amor e amar, sua sabedoria só pode vir, tal como o Messias de Kafka, um dia depois de sua chegada”.
Alguns sentimentos se assemelham ao mesmo tempo se contrapõem ao amor, um deles é o desejo. “O amor quer possuir (...) o desejo quer consumir” (BAUMAN, 2004, p.24). Observando o acontecer desses sentimentos, conclui-se que o desejo pretende sanar o momento, e logo depois enamorar outro objeto, como em um ciclo, já o amor enamora o objeto até conseguir conquistá-lo, e depois tenta preservá-lo. Essa é a grande diferença. Bauman compara e reflete que:
“É como num shopping: os consumidores hoje não compram para satisfazer um desejo, como observou Harvie Ferguson – compram por impulso (...) E assim é numa cultura consumista como a nossa, que favorece o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, resultados que não exijam esforços prolongados, receitas testadas, garantidas de seguro total e devolução do dinheiro. A promessa de aprender a arte der amar é a oferta (falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a “experiência amorosa” à semelhança de outras mercadorias, que fascinam e seduzem exibindo todas essas características e prometem desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultados sem esforço (p. 22-26)”
Sobretudo o importante é refletir sobre a grandeza de um sentimento único, imortal e completo. Respeitá-lo por dois motivos: em adoração a quem se entrega esse amor e em agradecimento por ele existir entre iguais e diferentes.
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